quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Desejo, necessidade, vontade...

Eu vejo muita TV... é que TV fica ligada enquanto a gente faz o resto das coisas, né?
Lembro da aula do André Rittes sobre sociedade pós-moderna, quando ele desafiou a classe a passar um dia sem ligar a TV.
Eu não consigo. Eu acordo com a TV (é meu despertador, apesar do celular ser mais eficiente). Daí eu tomo café na cozinha com a TV da sala ligada. Trabalho em TV, então tem aparelhos ligados por toda parte - e na falta do que fazer, mais TV.
Então eu volto para casa, almoço assistindo TV, durmo à tarde com a TV ligada, acordo e continuo vendo TV.
Outro dia, em São Paulo no apartamento do meu namorado, a Net caiu. Caiu TV, internet e telefone. Não tem antena aberta lá, logo, fiquei sem TV. Sem internet ficou pior. E sem telefone, não dava para reclamar.
Imagina o desespero?
Liguei o rádio e fui fazer faxina.
Mas a cada 15 minutos eu ia à sala para ver se a TV tinha voltado a funcionar. Porque eu faço faxina vendo TV - dá pra ter idéia de quanto tempo eu levo para limpar um Kit, né?

Bom, essa introdução toda para falar de outra coisa. Ainda no tema Santa Catarina, que ainda embrulha meu estômago quando eu como uma coisa muito gostosa (imagino a fome daquelas pessoas) ou quando eu vejo TV.
Muitos já ouviram a música Comida do Titãs. "A gente não quer só comida... A gente quer comida, diversão e arte..."
E aí você aplica essa música à calamidade daquele povo.
Comida e água eles vêm recebendo, mesmo que pouco.
Mas e a diversão, a distração?
A TV (mais uma vez ela) acabou de falar que eles podem ficar até 2 anos (dois anooooos!!!) em abrigos ou casa de parentes e amigos. Os segundos ainda têm sorte, um pouco de privacidade, e de repente uma cama mais quentinha. Mas e os primeiros??
Os segundos têm TV, mesmo que uma só para 15 pessoas. E os primeiros?
Imagina você, um ano sem TV! Agora imagina 2 anos!
Imagina você 2 anos sem sua cama, sem sua roupa, sem aquele tênis que você lutou (ou não) para comprar, e que era seu favorito até a água levar embora.
Reclama da vida aí, vai.

Mas voltando ao foco...
Ontem ou anteontem o Jornal Nacional mostrou as crianças jogando pingue-pongue, os adultos cortando grama, cuidando de tudo para se distrair.
Peguei uns jogos e coloquei na sacola de doações.
Parece fútil, né?
Não vou sentir falta deles, mas as crianças vão adorar ter mais um jeito de se distrair.
Mesmo que eu sentisse falta... será que eu não posso comprar outros?
Amanhã é dia de ir às compras. Será que posso mandar um pouco de arte e cultura para eles? Será que eles vão concordar que é necessário?
Ou será que ofende?
Sei lá... queria poder dar um pouco de distração.
Comida alimenta o corpo, arte alimenta a alma...

Desejo, necessidade, vontade...
Desejo por paz, privacidade, sossego.
Necessidade de comida e água, banho, cama.
Vontade de comer algo gostoso, de sair para andar à beira-rio... à beira daquele rio que tirou tudo deles... será que ainda vai haver essa vontade?

Desejo, necessidade, vontade... de ser feliz novamente! De ter dignidade!

Um comentário:

Paulinha Alves disse...

Raquel, eu nunca tinha pensado nesse lado de carência dessas pessoas. Muito interessante sua reflexão!